O salão está escuro; os refletores todos apagados. Eu tenho medo. Que medo! A psicanálise deve saber o porquê. Eu, contudo, não sei de quase nada - ainda que desconfie de muita coisa.
O Tempo ou o seu Senhor, aí varia de acordo com sua crença, é quem vai acender as luzes: uma a uma... revelando os mistérios abrigados nesse galpão de emoções boas e más que não necessariamente estão bem dosadas.
E, antes que pense, dou logo um aviso: “Nada de previsões!”
Está escuro, peste. Qualquer menino já sabe que no breu não adianta enxergar bem e que os morcegos têm a audição como o seu sentido mais apurado.
Façamos silêncio. Senão eles podem nos ouvir...
Carpe Diem! Só não se esqueça que pode haver um buraco logo ali. Por isso mesmo: Carpe Diem!
O Amanhã
Coisas dos EUA
O ano de 2009 mal começou e os norte-americanos já têm uma história no mínimo inusitada para contar. Isto porque toda a população de Santa Clara, um dos principais municípios localizados na região do Corn Belt, simplesmente desapareceu.
Casas, ruas, praças, plantações... todas as dependências dessa cidade interiorana dos Estados Unidos foram encontradas abandonadas e sem nenhum vestígio que pudesse revelar para onde se deslocou os seus 27683 habitantes.
O detetive Charles Mac Coie, responsável pelo distrito de Riveberg, foi o primeiro a visitar a cidade após o misterioso acontecimento e, tão logo percebera o ocorrido, acionou a CIA ainda na manhã do dia 2 de janeiro deste ano a fim de que houvesse o esclarecimento do caso. Em entrevista a um veículo informativo local, Mac Coie declarou que se sentiu apavorado quando chegou à cidade e encontrou suas construções intactas, porém sem ninguém. O detetive disse ainda ter se imaginado num filme de terror, tamanha a estranheza que o ambiente lhe proporcionara.
O governo mantém as investigações no local e não estipulou um prazo para a apresentação da solução desse mistério. Por outro lado, milhares de pessoas do mundo todo declaram saber o que realmente aconteceu em Santa Clara.
Grupos religiosos locais afirmam que a população sofreu uma espécie de arrebatamento e que este episódio se repetirá mais vezes por todo o globo até que chegue o dia do Juízo Final. A seita X-E, que acredita na existência de extraterrestres, relacionou o fato ao cumprimento de uma profecia milenar a qual anunciava a abdução de uma comunidade inteira por uma nave espacial a fim de que a espécie humana fosse introduzida num novo planeta e nele fizesse morada a partir de então. Integrantes da extrema direita ocidental acusam organizações terroristas, alegando que foi utilizada uma nova arma de destruição em massa e que, se essa não for urgentemente capturada, a humanidade corre o risco de desaparecer para sempre. Os adeptos às teorias da conspiração alertam comunicando que esse acontecimento trata-se da primeira manobra do Barac Obama como presidente dos EUA para solucionar a crise, visto que um episódio tão sensacionalista desvia o foco das tensões e permite ao governo um maior número de manobras políticas radicais. O presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, em recente declaração extra-oficial disse acreditar que o sumiço das pessoas possui ligação com o embargo dos Estados Unidos ao etanol brasileiro o qual, segundo ele, é bem melhor por ser proveniente da cana e não do milho, como é o caso do americano.
Fugindo da linha “Scoobdoob-doo”, o papa Bento XVI leu na praça de São Pedro uma carta de consolo aos familiares e amigos que estão sofrendo com o desaparecimento de seus entes queridos e solicitou que todos acreditem num milagre, pois fé e amor são a chave para a resolução de todos os problemas.
Expeculações a parte, os quase 30000 habitantes de Santa Clara continuam desaparecidos e sem previsão de regresso. Sabendo-se que os Estados Unidos da América é a terra da liberdade e o único lugar do mundo onde tudo pode acontecer, o melhor a ser feito é aguardar os próximos capítulos e o desfecho dessa história.
MURAL
Seguem abaixo as melhores frases ditas/ouvidas por mim ao longo dessa semana que se finda:
“Vendo tanto colorido nas fachadas das casas, qualquer um de bom senso conclui que tem gente achando que o Natal trata-se de uma espécie de carnaval fora de época.”
“Depois que eu descobri que com dez reais em maconha fico doidão, nunca mais gastei cem pra me embebedar com cerveja.”
“Uma banca incapaz de interpretar seu próprio escrito não tem banca pra corrigir minha redação.”
“Finalmente ser pobre me garantiu algum benefício.”
“Nada melhor do que levar uma surra fazendo sexo. Isso me deixa cheio de tesão...”
“O espelho reflete o rosto; a arte, a alma.”
“O rico fala difícil para parecer intelectual. O pobre fala difícil para parecer rico.”
“Essa loja é muito racista! As calças aqui são todas médias: não tem nem muito grande nem muito pequena.”
“Num país onde só a corrupção funciona bem o transporte público jamais poderia ser satisfatório.”
“O mau do urubu é achar que o boi está morto.”
METEOROLOGIA
Ai, que nervoso! O tão esperado Turbilhão de Emoções acaba de atingir as fronteiras do meu território. Seus efeitos já podem ser percebidos por qualquer observador da vida alheia, desses tantos que temos por aí. A tempestade avança em direção ao cerne do meu espaço físico, ousando uma aproximação em velocidade progressiva e acelerada ao Órgão Regulamentador das minhas políticas sociais, que nem sempre são tão politizadas. Por conseqüência dessa movimentação, em todos os meus cantos sente-se um misto de frio e de calor. Ora um, ora outro, ora um paradoxo, no qual ambos coexistem.
Vale ressaltar, contudo, que até o momento é impossível avaliar os danos provocados pelo Turbilhão. Não se sabe, inclusive, se ele surtirá, no fim, o caos absoluto de uma região totalmente devastada ou a paz triunfante decorrente da vitoriosa calmaria após um longo período de agitação.
CONFISSÃO
Não espere um bom texto claro e conciso, pois tudo que aqui se narra vem do coração. Portanto, não tenha vergonha, caso te pareça melhor, desista logo desta leitura que leva ninguém a lugar algum.
Odeio o tom melancólico, mas faz-se necessário, visto que se trata de uma confissão. Essa coisa amarga que expurgo agora, lançando-a boca-a-fora, arrepia-me até o cerne do meu sei lá o quê.
Meu sonho é ser trainee. Minha ilusão, ver meu pós-morte.
Ah... se tudo isso fosse concreto! Certamente, não mais haveria dúvidas, questionamentos, até mal do Barroco ousaria falar. Contudo, permanece a abstração. Eu, aqui, intensamente sozinho, completamente nu, desinformado, clamando por resposta ao futuro que se finge de mudo.
Nasci diferente assim como os outros que já sofreram pelo peso da consciência obscura (subjugada pela nossa amada sociedade). Cresci para me consertar, porém meu concerto insiste na desafinação. Mas Quem inventou a música deixou sua assinatura em letras visíveis ao olho despido dos homens limitados dessa terra fedida?
Mesmo sem resposta é preciso viver; matar um ou mais leões por dia. Pior de tudo em vida é quando ela esconde consigo tais animais ferozes os quais se constituem como seres intrínsecos ao desenvolvimento de tudo que é preciso para chegar aos mais altos patamares, onde a realização é verdade e pintada bem colorida.
Quero o palco, anseio pelo amor, necessito da correspondência. Almejo o dia em que a carta chegará, trazendo minha alforria, permitindo-me, pois, coabitar aos escravos da carnificina. Tenho meus vícios ocultos, revelados a cada instante, mas os cegos todos que me cercam são incapazes de perceber.
A paixão toma meu peito, a racionalidade perde espaço e entrego-me ao caos da mancha urbana indefinida que pranteia meu coração. Não sei de nada! E os outros sabem menos ainda. Sobretudo, é fato que não sou louco. Aliás, qual seu olhar sobre normalidade/anormalidade? Conte-me agora, pois fui traído pela traição. Exemplos, hoje, não me faltam; mas, quando mais precisamos, levam nossos objetos que secretamente pulsam o sangue na bomba vermelha de emoção.
As linhas autolimitam o pensamento. O espaço, o tempo e o estudo deles regem meu conhecimento que desconhece o principal: a mim mesmo! De que me adianta o “diretório” se não estou habilitado a dirigir meus passos?
Em suma, o “cabe, pois” não cabe aqui. Não tem solução.
E agora? Aguardo em silencio e mau-humorado, porque falar besteira é coisa de criança, do meu pretérito inocente refugiado nos atos impensados. Quietinho quem sabe, talvez, convenço-o a soltar o verbo que aprisiona meu corpo a todo esse imundo pedaço de chão azedo.
BANANAS
Havia Dona Joaquina. Era uma senhora distinta como todas as outras de sua idade. Seus cabelos brancos denotavam uma vida repleta de experiências e aprendizados. Contudo, enquanto ainda vivia, ninguém jamais previra que a senhora em questão tinha uma compulsão, a qual foi responsável pela sua ruína. Dona Joaquina era viciada em bananas; degustava várias por dia, todos os dias, sentindo um prazer indescritível em cada mordidela. E, por ser distinta, não fazia distinção de espécies. Para ela, não importava o tipo nem a maturação do fruto. Vale ressaltar que Dona Joaquina não dispensava sequer as bananas nanicas.
A história de vida de Dona Joaquina se encerra com sua morte. A coitada, que sempre rogava a Deus por fartura, não cultivara nenhuma bananeira farta em seu quintal. Dessa forma, com o passar do tempo já não possuía mais vigor para sair às feiras a procura de boas bananas. Entrou, então, numa grave crise de abstinência, sofreu muito, resolveu desabafar seu segredo num manuscrito a fim de que pudesse se sentir aliviada. Nada adiantou. Ela virou adubo de bananeira.
A estória de Dona Joaquina se inicia com sua morte. Reza a lenda, que a alma da nossa distinta senhora, tão logo soltou do corpo, emergiu aos altos céus acreditando que adentraria ao paraíso. Estava feliz, porquanto cria também que nessa outra vida haveria um bananal sem fim. Entretanto, Deus embargou sua entrada. Afinal, onde já se viu mulher viciada em banana habitando no céu junto a outras tantas santas?
Canção do Exílio
Conheci você na última semana
E não paro mais de pensar em ti
Nossos destinos se cruzaram estranhos
Trocamos olhares, mas nem percebi
Você persistiu em me conquistar
Tão logo que vi, me excitei
Seus lindos olhos da cor do mar
Eram tudo que sempre sonhei
Com vontade foi o nosso amor
Loucura cinética de braços e abraços
Seu direito torto me fez todo errado
Sem hesitar, avancei nos passos
E, agora, estou todo quebrado
Tropecei, caí feio por andar afobado
Aprendi, ao menos, a lição do tesão
Se ele não sai da cabeça, te deixa no chão